12C

Lendo “The God Dellusion”, de Richard Dawkins, me sinto um alien as vezes. A maioria das pessoas lê coisas muito mais normais como revistas, ou artigos “interessantes” e não necessariamente realistas, fofocas, etc. Estou entretido como a minha leitura, quando a pessoa sentada ao meu lado, obviamente prestando atenção no meu Kindle Paperwhite, me pergunta se eu estou lendo um livro sobre religão…

Como reagir numa hora dessas, no meio de um vôo das Filipinas para a Tailândia, respondendo à uma moça de uns trinta e poucos anos, com a filha de acompanhante, sem causar pânico? Nunca me perguntaram nada parecido, não assim, no meio do vôo, sobre algo tão “delicado” (o país de origem é extremamente religioso, a ponto do presidente recém eleito ter que remover a proposta de distribuição gratuita de camisinhas, por ter sido condenado por TODOS os níveis politicos e religiosos – seria suicídio político, apesar do nome famoso).

O diálogo foi curto, eu tentei ser o mais educado possível, mas sabia que poderia assustar a moça. E isso tudo depois de ser extremamente educado durante o vôo, ajudando-a a preencher o formulário de imigração, emprestando caneta, sendo prestativo quando a filha precisava ir ao banheiro no meio da janta. Sabia que nada disso adiantaria se eu falasse abertamente sobre eu não acreditar em religão e ateísmo, inexistência de deus, etc.

No fim, mantive minha honestidade, e acho que consegui assustar alguém o mínimo possível:

– Senhor, o que você está lendo? É um livro religioso?
– É… mais ou menos… é um livro com argumentos contra religão.
– Ah… mas você é um rapaz religioso?
– Na verdade não…
– Como assim?
– Eu não tenho religião, não acredito em nada.
– …

Esse foi o final da conversa. A expressão de suspresa e horror contido no olhar da moça é algo difícil de descrever. Ela chegou a “pular” na cadeira, se afastando de mim, da posição prévia de “tentar ler o livro pra ver do que se trata” pra “se proteger da influência malígna que ameaça sua filha”, e se mantém até agora no limite da poltrona 12B, abraçada a filha que tenta dormir, obviamente evitando qualquer esbarrão e contato com meu braço.

É uma pena que a religião cegue e lobotomize pessoas aparentemente simpáticas, a ponto de ficarem medo de alguém que tem uma opnião diferente, mas que de nenhuma forma afeta suas vidas.

Leonel,
Poltrona 12C

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About LeoViotti

Born in the beginning of the 20th century, on the small tiny city of São Paulo, Leonel is now almost 100 years old... or at least it feels like. :)
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1 comment


  1. BOLINHA

    Certa vez estava na rodoviária esperando minha esposa (na época namorada) chegar de viagem, cheguei meio cedo e fiquei ali enrolando na praça de alimentação quando fui surpreendido pelos cumprimentos de um segurança que trabalhava numa empresa na rua da casa dos meus pais. O sujeito, bom de papo, também estava a passeio e me convidou pra tomar um chope. Sentamos numa mesa e começamos a conversar… É obvio que eu sabia que o sujeito não era nenhum santo heróico protetor da paz, até pq ele já havia baleado um bandido na rua da minha mãe tempos atrás e sua frieza deixou claro que aquilo não foi uma primeira vez.

    O negócio é q mesmo sabendo de que se tratava de uma pessoa “barra pesada”, fiquei bastante angustiado ao escutar as histórias de assassinato que ele me contava. Ele me contou que ateou fogo numa casa com a família de um malandro lá dentro a mando de um cantor sertanejo famoso. Queimaram todos.

    Se a história é verdade ou não, não sei, mas pra mim, o relato dele pareceu verdadeiro.

    O fato é que, de repente, um sujeito q me parecia boa praça, quem eu sempre cumprimentava, passou a ser um personagem de terror.

    Ao receber a ligação da minha namorada no celular avisando q havia chego, me senti aliviado de sair de perto daquele homem, que mesmo insistindo, não me deixou pagar parte na conta e agradeceu muito minha companhia.

    E as vezes parece que a reação de algumas pessoas ao saberem que alguém bem quisto é ateu, é a mesma surpresa que tive em relação ao segurança..

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